A ARTE DE LER

O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.

Mario Quintana (Caderno H)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Uma Literatura que vale a pena conhecer


A literatura de cordel é uma poesia popular de tom humorístico que aborda assuntos da vida cotidiana da cidade ou da região. Os principais assuntos retratados nos livretos são: festas, política, secas, disputas, brigas, milagres, vida dos cangaceiros, atos de heroísmo, milagres, morte de personalidades etc.
Para melhor entender O que é Literatura de Cordel, abaixo segue uma música de Francisco Diniz, que de um modo poético conceitua bem o que é essa literatura.



Literatura de Cordel

É poesia popular,
É história contada em versos
Em estrofes a rimar,
Escrita em papel comum
Feita pra ler ou cantar.

A capa é em xilogravura,
Trabalho de artesão,
Que esculpe em madeira
Um desenho com ponção
Preparando a matriz
Pra fazer reprodução.

Mas pode ser um desenho,
Uma foto, uma pintura,
Cujo título, bem à mostra,
Resume a escritura.
É uma bela tradição,
Que exprime nossa cultura.

7 sílabas poéticas,
Cada verso deve ter
Pra ficar certo, bonito
E a métrica obedecer,
Pra evitar o pé quebrado
E a tradição manter.

Os folhetos de cordel,
Nas feiras eram vendidos,
Pendurados num cordão
Falando do acontecido,
De amor, luta e mistério,
De fé e do desassistido.

A minha literatura
De cordel é reflexão
Sobre a questão social
E orienta o cidadão
A valorizar a cultura
E também a educação.

Mas trata de outros temas:
Da luta do bem contra o mal,
Da crença do nosso povo,
Do hilário, coisa e tal
E você acha nas bancas
Por apenas um real.

O cordel é uma expressão
Da autêntica poesia
Do povo da minha terra
Que luta pra que um dia
Acabem a fome e miséria,
Haja paz e harmonia.

Os principais cordelistas dessa Literatura encantadora e crítica são: Apolônio Alves dos Santos, Arievaldo Viana Lima, Cego Aderaldo, Elias A. de Carvalho, Elias A. de Carvalho, Firmino Teixeira do Amaral, Francisco das Chagas Batista, Francisco Sales Arêda, Gonçalo Ferreira da Silva, João Martins de Athayde, João Melchíades Ferreira, Joaquim Batista de Sena, José Camelo de Melo Resende, José Costa Leite, José Pacheco, Leandro Gomes de Barros, Manoel Camilo dos Santos, Manoel d'Almeida Filho, Manoel Monteiro, Mestre Azulão, Patativa do Assaré, Raimundo Santa Helena, Severino Milanês, Silvino Pirauá, Zé da Luz, Zé Maria de Fortaleza.

Para se encantarem com a Literatura de Cordel, abaixo uma poesia rica em cultura:

Brasi Caboco
Autor: Zé da Luz
O qui é Brasí Caboco? 
É um Brasi diferente 
do Brasí das capitá. 
É um Brasi brasilêro, 
sem mistura de instrangero, 
um Brasi nacioná!

É o Brasi qui não veste 
liforme de gazimira, 
camisa de peito duro, 
com butuadura de ouro... 
Brasi caboco só veste, 
camisa grossa de lista, 
carça de brim da “polista” 
gibão e chapéu de coro!

Brasi caboco num come 
assentado nos banquete, 
misturado cum os home 
de casaca e anelão... 
Brasi caboco só come 
o bode seco, o feijão, 
e as veiz uma panelada, 
um pirão de carne verde, 
nos dias da inleição 
quando vai servi de iscada 
prus home de posição.

Brasi caboco num sabe 
falá ingrês nem francês, 
munto meno o português 
qui os outros fala imprestado... 

Brasi caboco num inscreve; 
munto má assina o nome 
pra votar pru mode os home 
Sê gunverno e diputado 
Mas porém. Brasi caboco, 
é um Brasi brasileiro, 
sem mistura de instrangero 
Um Brasi nacioná!

É o Brasi sertanejo 
dos coco, das imbolada, 
dos samba, dos vialejo, 
zabumba e caracaxá! 
É o Brasi das vaquejada, 
do aboio dos vaquero, 
do arranco das boiada 
nos fechado ou tabulero! 
É o Brasi das caboca 
qui tem os óio feiticero, 
qui tem a boca incarnada, 
como fruta de cardoro 
quando ela nasce alejada!

É o Brasi das promessa 
nas noite de São João! 
dos carro de boi cantano 
pela boca dos cocão.
É o Brasi das caboca 
qui cum sabença gunverna, 
vinte e cinco pá-de-birro 
cum a munfada entre as perna! 
Brasi das briga de galo! 
do jogo de “sôco-tôco”! 
É o Brasi dos caboco 
amansadô de cavalo!

É o Brasi dos cantadô, 
desses caboco afamado, 
qui nos verso improvisado, 
sirrindo, cantáro o amô; 
cantando choraro as mágua: 
Brasi de Pelino Guedes, 
de Inácio da Catingueira, 
de Umbelino do Texera 
e Romano de Mãe-d’água!

É o Brasi das caboca, 
qui de noite se dibruça, 
machucando o peito virge 
no batente das jinela... 
Vendo, os caboco pachola 
qui geme, chora e soluça 
nas cordas de uma viola, 
ruendo paxão pru ela!

É esse o Brasi caboco. 
Um Brasi bem brasilero, 
sem mistura de instrangêro 
Um Brasi nacioná! 
Brasi, qui foi, eu tô certo 
argum dia discuberto, 
pru Pêdo Arves Cabrá.

Gostaram? Então aproveitem e se deliciem com essa nova forma de expressão.
Boa leitura!

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